Luciana Bastos Siebert é artista visual, escritora e curadora residente em Balneário Camboriú (SC). É idealizadora da Galeria Útero e do centro de estudos contemporâneos LOTE84, onde atua desde 2015 em iniciativas formativas e curatoriais. Destaca-se o projeto Esse In Anima, realizado em três edições com apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Município, que reúne oficinas, residências, práticas de investigação simbólica de inspiração junguiana e exposições coletivas. É formada em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali).
O que se disse sobre a obra:
"Uma flor de Pertúrbia é um mergulho radical na experiência de ser mulher num país ferido, narrado como se memória, sonho e delírio dividissem o mesmo corpo e a mesma frase. Não é romance de boas maneiras: é um livro que acende a luz no porão, senta ao lado dos monstros e pergunta o que, afinal, fizemos do que nos fizeram.
Sob a forma de uma longa carta endereçada a Raquel, a narradora vasculha infância, maternidade possível e impossível, amores viciados, violências miúdas e graúdas, atravessando a maturidade com o humor de quem sabe que o corpo é cômico e trágico ao mesmo tempo. Entre uma imagem onírica e outra, o texto costura teorias, filmes, mitos e deuses esquartejados, sem pedir licença ou desculpa.
E se batêssemos em um liquidificador as prosas da chilena Diamela Eltit, da mexicana Fernanda Melchor, da argentina Selva Almada, das norte-americanas Chris Kraus e Miranda July e da equatoriana Mónica Ojeda e adicionássemos a benção da deusa Gertrude Stein aos furiosos ventos atlânticos do litoral norte-catarinense?
Pertúrbia é um território em que a psicologia encontra a fofoca de bar, a deusa inuit Sedna tromba com a vizinha da infância, e as narrativas sobre abuso e culpa são arrancadas do discurso edulcorado para reaparecer em estado bruto, feroz (mas às vezes lírico, às vezes debochado). Há a aposta numa lucidez insubmissa, que tropeça, ri, delira e floresce torta no asfalto da experiência feminina, regada a sangue, riso, cigarro, filosofia instantânea e intuições profundas. Virginia Woolf com seu vestido cheio de pedras no rio ou uma pincelada de Leonora Carrington. Mise en abyme."
- Carlos Henrique Schroeder
"Pertúrbia [e o cheiro almiscarado de sua flor]
Quantos de nós poderemos, em algum momento da vida, enterrar o nariz nas flores silvestres de um vasto campo inviolado pelas intervenções humanas? Jamais o fiz e não conheço alguém que já tenha cometido tal façanha. Talvez, dentre tantas flores, Uma Flor de Pertúrbia seria uma florescência intacta num desses campos selvagens.
Enquanto eu lia o livro de estreia de Luciana Bastos Siebert, senti o selvagem agindo. Por vezes, imaginei o tal campo de flores silvestres e quase pude sentir um cheiro almiscarado vindo de sua flora natural. Uma contradição, eu sei, pois o almíscar é uma fragrância extraída dos textículos de um cervo em particular e não das flores silvestres do campo. Mas, ao terminar a leitura, posso garantir que a contradição dessa imagem não é um problema.
Inclusive, a contradição das imagens pode ser a resolução. Resolvem-se capítulos de uma vida nas frases de um grande texto que tem muito a dizer. Esse texto se transforma em livro, pois dentro de sua grandiosidade, existem incontáveis outros textos por dentro de seus contextos e subtextos. Daí, torna-se perturbador ler um livro de ficção que nos transporta para a realidade interna de pensamentos freneticamente profundos.
A cosmovisão acerca da escrita que envolve este livro nos faz questionar até mesmo os limites estreitos e sufocantes dos gêneros literários catalogados até o momento. Experienciar o cheiro almiscarado da flor dos campos de Pertúrbia talvez seja semelhante à leitura de uma linguagem que experimenta dizer a verdade por meio de contradições, esquinas, ventos de turbina e ficções realistas.
Imagino, por diversão pessoal, que Uma Flor de Pertúrbia é um diário sendo carregado debaixo do sovaco. Cada uma de suas palavras é uma gota de suor e um corte de gilete num dia de depilação. Talvez muito tenha sido cortado e editado, mas a verdade está aí, para quem quiser ler. A verdade é o que de mais profundo carregamos conosco e este livro nos lembra verdades que gostaríamos de esquecer, pois são contraditórias, complicadas e, por vezes, hipócritas demais para as seguirmos tão à risca.
Talvez, por isso, tenha me surgido a imagem do campo de flores silvestres, pois A Flor deste livro é coberta de ternura, apesar de seus espinhos. A beleza não compete com a rudeza agreste. Questionar nossos monstros de estimação me pareceu uma tarefa nobre após a leitura.
Próximo de seu início, o livro questiona: 'por que uma pessoa se submete, ama, nutre um monstro? essa resposta é muito particular e, se não for respondida, entregamos o corpo e a alma a outro monstro sorridente na bifurcação mais próxima'. No decorrer da leitura, acontece o chamado para contornar os abusos e persistir diante do direito de existir, e o cheiro almiscarado das flores deste livro induz confessar-se diante do espelho quebrado: 'se tudo é confissão, existir consiste em pactos incessantes que promovem a separação de corpos'. O impacto de certas palavras por vezes nos separa momentaneamente do mundo. Aquele mesmo mundo no qual tanto buscamos fazer parte e que não consegue nos manter longe da solidão.
Você, raquel e eu lemos e ouvimos demais. Agora somos cúmplices. Ficção é o nome que damos para tudo aquilo que acabamos de ler, mesmo que isso nos faça mentir. Não podemos chamar de outra coisa, pois esse nome ainda não foi inventado. Talvez com Uma Flor de Pertúrbia em nossas mãos, possamos nós inventar os nomes para aquelas coisas que existem, mesmo que não tenham sido ainda nomeadas.
Depois de ler a contradição das flores almiscaradas, raquel, penso que sentiremos saudades de ti. Com você, seguiremos cúmplices deste tempo de verbo e linguagem que ainda não tem nome certo para ser trancafiado em conceitos fechados. E o livro se acaba 'por aqueles que se importam', mas, também por estes, a vida continua (e a escrita também)."
- Sabrina Gesser