Em seu Decálogo do perfeito contista, o grande escritor uruguaio Horacio Quiroga aconselha, no preceito V: “Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”, e no preceito VIII: “Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja”. Em suma, se no romance o autor pode se entregar a digressões de toda espécie e deixar que seus personagens “ganhem vida” e passem a ditar a narrativa, no conto o autor deve ter mão firme e se ater ao essencial, em nome da concisão, para que ele possa contar bem a sua história.
Nos 20 contos desta coletânea, seus autores mostram que entenderam bem essa regra. Embora tenham temas e estilos de narrativa muito diversos – o que é esperado em uma coletânea com vários escritores – todos mostram domínio da narrativa breve e primam pela concisão, pois, como ensinou outro mestre dessa arte, Anton Tchekhov, “Em contos é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais”.
Desde o Volume 1 da coletânea, publicado em 2024, a diversidade é a pedra de toque da importância de se mapear os autores e autoras que estão produzindo a nova literatura no Brasil – e não só: nesta edição, temos a participação de um autor português, Octávio Carmo, poeta já publicado pela Nauta. Uma curiosidade é que outros dois contos, embora escritos por brasileiros, também se passam em Portugal: os de autoria de Roberta Ramos e André Justi. E temos a volta de seis autores que já participaram das edições anteriores da coletânea: Adriana Moreira, Ana Carla Rodrigues Ribeiro, Eduardo Giraldez, Felipe Cuesta, Juliano Oliveira e Viviane Lanfredi. Os estados de origem dos autores também atestam essa pluralidade: Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pará, Paraná, Piauí, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
Aqui há contos anedóticos e morais, e também há aqueles que, segundo Cortázar, possuem um parentesco com poesia, pois ambos nascem de “um repentino estranhamento, de um deslocamento que altera o regime ‘normal’ da consciência”. Um e outro atestam a riqueza da nossa produção de narrativas breves.
- Marcelo Nunes
Depoimento do autor Octávio Carmo:
Embora nossas vozes e cenários sejam diversos, partilhamos um território comum: o da escuta atenta da vulnerabilidade e da resistência humana. Essa coletânea constrói um verdadeiro reduto de humanidade: personagens que espreitam seus próprios abismos e procuram fôlego onde parece haver apenas dor ou suspensão. O leitor viaja por secas impiedosas e fé inabalável, pela dureza crua da sobrevivência, pela melancolia do abandono, do tempo ou da longa espera. Devolve-se dignidade a silêncios cúmplices e amores, se assiste ao encontro improvável entre a poesia e a máquina ou à luta contra a supressão do sentir. Esse livro inconscientemente coletivo é uma pausa exigida ao mundo, um espaço de escuta e de cuidado, imune à hipervelocidade e ao utilitarismo dos dias em que vivemos.