O psicanalista, escritor e tradutor Edson Manzan Corsi é coordenador do Capítulo Brasil Centro-Oeste da Associação Internacional de Neuropsicanálise (NPSA); doutor em Estudos da Tradução (UFSC), autor de 12 livros, técnicos e artísticos. É professor universitário e exerce a clínica psicanalítica em consultório particular.
O que se disse sobre o livro:
As distopias na literatura geralmente apresentam estados totalitários em que a repressão sobre os cidadãos é violenta, embora por vezes velada; outra característica é que seus protagonistas, de um modo ou de outro, resistem a essa opressão – tal é a origem de seu conflito, o motor de toda narrativa de ficção. Os contos deste O purgatório de vidro: narrativas holográficas me chamaram a atenção porque, neles, o conflito é quase inexistente, e o que temos são as impressões de um mundo hostil, tal qual elas são apreendidas por personagens quase apáticos. Segundo o autor, estas são “cenas” mais do que narrativas. Aqui vemos seres humanos vivendo num futuro distante, em que a opressão política e social há muito deu lugar à supressão de suas subjetividades, aproximando-os de androides; por outro lado, há androides convivendo entre humanos e operando num sistema em que a assepsia e o controle são totais. Um já não é diferente do outro. Nesse sentido, O purgatório é um estudo ontológico, em que a própria natureza do ser é o foco da narrativa, e não as suas ações, pois o arbítrio humano foi esmagado de tal forma que qualquer resistência é impossível – tornando este livro uma das distopias mais desoladoras que eu já li. Porém, aqui e ali, o autor dá pistas de que a humanidade, afinal, tende sempre a persistir, como uma flor no asfalto. Uma obra breve, mas de enorme impacto.
- Marcelo Nunes
Mais do que intrigantes narrativas envolvendo realidades distópicas, com androides e todo o repertório da alta tecnologia, os enredos (em forma de imagem imóvel) propostos por Corsi tocam no templo sagrado do nosso narcisismo: como podemos nos sentir tão estranhos e alheios a tudo, se fomos capazes de usar o engenho humano para retirar todas as afiadas arestas existenciais? E, nisso, esses belos contos dialogam com a melhor tradição da ficção científica, como é o caso do maior de todos, "Frankenstein", em que, com o desejo de superar a nossa grande angústia definidora - a morte -, o cientista traz à vida o morto, mas, depois, o abandona, por não ser um reflexo de si mesmo.
Nas linhas da narrativa fluida do universo criado pelo autor, estamos todos (sim, você, leitor, também está) tentando sair desse purgatório de vidro. De dentro dele, vemos, lá fora, o mundo orgânico, impuro, aleatório e violento que, um dia, tentamos domar - nada mais humano do que buscar um jeito mais fácil. O preço: perder-se no insípido.
Ao fim desses contos, nossos olhos estão tomados por dimensões espaciais intermináveis, espelhos a perder de vista. Tudo parece pálido, perdido, morto. Terminamos a viagem guiados por narradores contemplativos, olhando passivamente o todo, divorciados do mundo e docilizados pela melancolia. Estão jogados em espaços higiênicos, alheios ao que foi perdido e amontoados de tecnologias que buscam, ingenuamente, suprir qualquer vontade e aplacar qualquer angústia. No entanto, seremos sempre herdeiros das vozes precárias dos nossos antepassados. Não há água capaz de limpar o sangue diário das nossas quedas; não há controle capaz de organizar o difuso. Algo sempre escapará.
- Manoel Camelo