Entrevista com Eduardo Lana
Entrevista com Eduardo Lana

Eduardo Lana é gaúcho, nasceu em 1985 e possui graduação e mestrado em História. Atualmente é professor do Ensino Médio em Santa Maria (RS). É autor dos livros de história A formação da Argentina e A consolidação da Argentina (Méritos Editora, 2024), bem como História do Uruguai (Paco Editorial, 2025). Pela Editora Nauta, publicou o livro de contos Sob o signo de Aquário (2025) e o romance A remissão do pai pródigo (2026). Admirador da literatura, considera que ela, assim como a História, oferece meios para os leitores chegarem à sua autocompreensão.
Entrevista
1. Lendo a sua biografia, fica evidente a sua paixão pela História e pela Literatura. Como esses interesses surgiram na sua vida? Quais livros e autores o influenciaram?
Eu fui muito incentivado para ler desde cedo pela minha mãe, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Na infância me recordo de ler livros clássicos adaptados para o público juvenil, como As minas do rei Salomão, Robinson Crusoé e Dom Quixote, assim como livros didáticos de História, que minha mãe obtinha com seus colegas, e todos eles foram produzindo em mim grande encantamento pelo passado. Na adolescência li Terras do sem fim de Jorge Amado, Germinal de Émile Zola, e algumas obras de Dostoiévski. Na faculdade, paralelamente às extensas bibliografias acadêmicas, descobri Por quem os sinos dobram de Ernest Hemingway, os contos de Anton Tchékhov e Jorge Luis Borges. Esse último considero o que mais me influenciou e influencia atualmente na escrita da narrativa curta. Sua construção de universos de múltiplas possibilidades e a projeção do passado no indivíduo em Ficções e O Aleph são incomparáveis. Nesta minha narrativa longa, A remissão do pai pródigo, posso dizer que há muitas influências. Victor Hugo é a quem mais atribuo uma forma rigorosa de construir personagens que são condicionados por aspectos diferentes de acontecimentos históricos. Raduan Nassar, em Lavoura arcaica descreve sensações profundas de seus personagens em frases densas, e seus personagens formam um quase amálgama com o ambiente rural. E por fim, Joseph Conrad na maneira de revelar a natureza ao leitor, aspecto que, embora muitos críticos minimizem a importância, considero fundamental para fazer o leitor imaginar o que lhe está sendo narrado.
2. Tanto em seu livro de contos, Sob o signo de Aquário, quanto no romance, A remissão do pai pródigo, há uma enorme pesquisa histórica. O que é mais difícil, a reconstrução histórica ou a criação ficcional?
Ambas apresentam desafios. É muito diferente escrever uma obra histórica de ambientar historicamente uma narrativa ficcional. Eu creio que na primeira usamos mais método, e na segunda artifícios. Um trabalho histórico deve ser amparado em referências primárias e secundárias, a pesquisa histórica é rigorosa, e tem uma estrutura científica. Já a narrativa que tem como pano de fundo uma época histórica, e ao meu ver deve produzir uma verossimilhança para a produção de sentido. Para tanto, não basta apenas o autor conceber os personagens, mas também achar os “pontos nevrálgicos” onde atitudes e comportamento deles condizem ou destoam da época. Em romances históricos vemos muitos pontos de vista de personagens divergentes do Zeitgeist (“espírito da época”), e acredito que isto não é por acaso. E é aí que entra algo sensacional que é a liberdade criativa. Os autores sempre levaram suas inquietações e sentimentos de toda ordem para dentro da ficção. Então creio que, devido à subjetividade, a criação ficcional é a mais complexa.
3. O seu romance é dedicado aos seus antepassados Angelo Baggio e Rosa Mascarin Baggio. O quanto do que lemos no livro é real, e o quanto é ficção?
Sim, são meus bisavós paternos. Como me referi no prólogo, se trata de um romance construído a partir de fragmentos de memórias. Em parte, a narrativa foi estruturada por um eixo histórico-cronológico dos eventos que meus antepassados vivenciaram, através de caracteres fornecidos por histórias orais passadas por, no mínimo, quatro gerações, além do que tenho conhecimento por documentos escritos e fotografias. Mas a outra parte é criada a partir do que eu imaginei, do que eu criei como escritor. Então posso dizer que no que toca a isso, o protagonista Angelo não foi o Angelo real. O Angelo do romance é uma representação fictícia de atitudes, pensamentos, dores e júbilos, problemas e redenção que podem ter ocorrido para qualquer indivíduo que se achasse em circunstâncias semelhantes. E isso vale para todos os personagens. Falo disto tudo não como algo negativo, muito pelo contrário. Jacques Rancière nos diz que na ficção, descrições não moldam somente ações de personagens mas também um modo de visibilidade que pode estar concordando ou discordando das coisas. Acredito que em alguns momentos moldei o Angelo personagem para agir de algumas formas que o Angelo real teria feito diferente. Mas eu gosto de imaginá-lo assim, e explorei esse artifício principalmente quando ele faz o exame de sua consciência e passa às ações concretas na trama. Enfim, para o escritor, conceber indivíduos em seus lugares de fala, em meio a situações que lhes impõem decidir como agir, é um desafio que se revela recompensador à medida que lhes atribuímos uma trajetória e um destino, para o bem ou para o mal.

Família de Angelo Baggio e Rosa Mascarin Baggio (Natal de 1951)
Acervo particular de Eduardo Lana
4. Grandes historiadores, como o francês Ernest Renan, foram também grande autores de ficção. Reconstruir e recontar a História sempre envolve a ficcionalização?
Também, e entre historiadores isso se revela muitas vezes um dilema. Muitos de nós dizem, inclusive, que não escrevemos história, e sim reproduzimos a historiografia. Eu rejeito essa concepção, pois acredito que a história é um consenso do que estudiosos do passado acreditam que está mais próximo do que ocorreu. Não quer dizer que um contexto histórico sempre será contado do mesmo jeito. Pelo contrário, temos exemplos de vários deles que foram questionados, versões refutadas, e hoje se tem uma narrativa histórica diferente. E isso ocorre, pois, a história, assim como a cultura, não são engessadas, e sim mutáveis. O cientista da história – o historiador, – realiza um trabalho de recolher provas, e se o seu conjunto for contundente, se convém de que aquilo ocorreu de tal forma, se corrigindo as falhas e lacunas deixadas por outras versões. Isto foge da ficcionalização. Roger Chartier, um historiador que se debruça sobre a história de leitura, afirma que a literatura é um objeto necessário da investigação histórica, e trata obras literárias como fontes históricas, sustentando que elas representam uma inteligibilidade abrangente. Creio que quando um romancista, contista, dramaturgo ou poeta intervém com a sua versão criativa do que ocorreu, trazem à tona uma versão nova, carregada de elementos criativos e belos, que muitas vezes se sobrepõem ao que se julga que foi o real. Hoje, por exemplo, dificilmente algum grego falaria da Guerra de Troia explicando ao seu interlocutor de que foi um conflito provocado por disputas comerciais e de territórios na Ásia Menor. Ele irá falar sobre Aquiles, Heitor e Ulisses e seu cavalo fixadas no imaginário ocidental pelo poeta Homero. A visão mais conhecida dos mosqueteiros do rei Luís XIII não se deterá nos arquivos militares do Ancien Régime, mas sim nas descrições de Alexandre Dumas, Pai. Algumas obras canônicas da literatura também são ensaios históricos profundos, como Os Sertões de Euclides da Cunha e Facundo, de Domingo Faustino Sarmiento. Mas a história não anula a ficção, e vice-versa. Como obras da ação e do engenho humano, se inter-relacionam, e muito mais do que podemos imaginar. O fato de Maquiavel, Voltaire e Ernest Renan terem sido ao mesmo tempo dramaturgos e historiadores, e de Edward Gibbon ser historiador e autor de estudos literários, entre outros vultos, comprova o quanto a ficção e a história tocam os homens na forma de tentarem compreender as coisas. E por fim, até hoje leitores podem se identificar com o que os escritores escrevem, e se autocompreenderem.
5. Quais são os seus próximos projetos como escritor e/ou historiador?
Na história, tenho em vista um projeto onde eu poderia relacionar os nacionalismos e a cultura. Em uma época em que a globalização (ou pós-globalização, como preferem alguns) esfacela identidades regionais e nacionais, gostaria de analisar como diferentes expressões da cultura fizeram uma radiografia da conjuntura que alguns países atravessavam. Na ficção, quero retomar a narrativa curta. Tenho contos e ideias de contos que não vieram à luz em publicações, e eles versam sobre desencontros de afetos, frustrações materiais e de ambições, memórias de infância, dilemas morais na ascensão social, a luta por superações... e alguns se desenrolando em cenários históricos mais uma vez. Veremos.
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