Leia um conto de "O purgatório de vidro"
Leia um conto de "O purgatório de vidro"
Licença Poética
Edson Manzan Corsi
A cena era clara. Meus sensores captavam tudo precisamente. O Sol entrava tímido e furtivo pela janela, no final de tarde. O apartamento não era rico. Simples aparato de classe média. Madeira, alumínio, alguns graus de transparência; ou de absoluta opacidade em tabaco. O desenho do corpo jazia ali, à minha frente, seus contornos feitos pelos agentes de polícia. Havia sangue, uma mancha grande e profunda no chão, escorrendo a partir do desenho. Era para a janela estar fechada. Não deveria haver luz ali... (Mas...). Eu passei a caminhar entre as coisas. Como oficial, minha missão era achar alguma pista do assassino. Era essa minha programação. A voz de meus circuitos. A tonalidade de meu objetivo elétrico. Ao me esgueirar pelo apartamento, deparei-me com uma estante de livros, num escritório contíguo à sala onde o crime ocorrera – quase junto à porta de metal que lacra o imóvel.
Um volume, na pequena, porém atraente, estante metálica organizada pelos matizes de cores dos livros, chamou-me a atenção, pela robustez de seu encadernamento, pela beleza amarronzada de sua lombada e capas: T. S. Eliot, Poemas. Abri o livro.
Por que um androide pegaria esse livro? Bom... Fui movido por ele ser bonito... O primeiro poema me trouxe algo, sobre ruas que se estendem como um tedioso argumento, tencionando chegar em uma angustiante questão. Comecei a querer “me alimentar” daquilo. Acho que posso traduzir essa sensação como querer ser humano. Querer a angústia... Seria a angústia, essa da qual via as gentes pesadamente falarem, uma aventura que valesse a pena? Seria por isso que cometiam crimes? Matavam e se diluíam, fazendo-se mal de tantas formas? Vi versos sobre uma centena de visões e revisões, antes do chá com torradas. Muito pensamento. E passou a parecer que eu mesmo já começava a pensar demais. Haveria alguma desconhecida programação para a poesia em mim? Para captá-la? Segui, vislumbrei quadros através de trechos sobre Lázaro, sobre uma cabeça servida numa travessa – a do próprio escritor – e, ao final, uma bela imagem sobre as águas e o canto das sereias. O escritor dizia não acreditar que elas um dia cantassem para ele. Eu, humanoide, nunca receberei nenhum ressoar de cantares, e minha cabeça já está servida nos registros meramente técnicos do estado. Meu destino é ser aposentado, virar carcaça logo, logo. Meu destino é voltar ao meu trabalho de investigação, e, depois, para as ruas, que não se importam nem um pouco comigo ou com a solução deste caso. Mas a burocracia é estonteadora, em seus letrífugos e arquívicos labirintos nauseantes. Talvez isso tenha a ver com angústia, com as ruas, mas não com as sereias. Elas são assassinas, cantam para irremediavelmente seduzir; e matar. O assassino que passou aqui e devo caçar não é sereia, é um cão-abutre, nocivo e catastrófico, produzido por essa metrópole terrífica, por esse mega Hades (no qual me movo anônimo – robótico, cabisbaixo, entre pessoas e demais máquinas; idênticas a pessoas) digital, metalizado e vítreo.
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