Entrevista com Fernanda Spinelli
Entrevista com Fernanda Spinelli

Fernanda Spinelli nasceu em Santos, SP. É poeta, tradutora, psicóloga e professora. É autora de Síntese de Passageiro (Editora Delicatta, 2020) e da antologia Paninos Eternos (edição da autora, 2022). Em setembro de 2023, o seu livro Imago foi o primeiro lançamento da editora Nauta.
Começando do início, como a literatura e a poesia surgiram na sua vida? Quem você leu? Que obras te marcaram?
Comecei a ler livros quando fui alfabetizada, livros infantis, ficava relendo e me divertindo. No mesmo momento, veio o dicionário - eu era obcecada pelo dicionário, um dos meus brinquedos favoritos, passava horas com ele no colo indo de palavra a outra, a partir das definições que surgiam, era uma grande aventura infinita de exploração do mundo através das palavras, descobrir o sentido da coisas e as formas visuais e sonoras delas – a mesma alegria que tinha ao tocar as plantas e tudo ao redor, eu era completamente alegre e apaixonada pela vida, tudo era motivo para celebrar e me entusiasmar, os livros eram apenas mais uma dessas coisas – nunca fui o estilo “bookworm introvertida”; sou um ser do mundo, um ser sobretudo de experiências lá fora. A poesia surgiu na minha vida no primeiro ano do ensino médio, aos 14 anos, a professora de literatura passou os três anos fixada em pedir aos alunos análises de poemas, análise da metrificação, contagem das sílabas poéticas, e ali pra mim poesia virou sinônimo de música e ritmo, não separo uma coisa da outra e não quero separar. Muitos autores me marcaram, mas na prosa até hoje ninguém me tocou do jeito que Machado de Assis consegue, com seu tipo específico de senso de humor e genialidade, e na poesia, poucos falam a mim como Cecília Meireles e Roberto Piva, meus preferidos em articular ritmo e conteúdo.
Quando você decidiu começar a escrever? E por que poesia?
Eu não decidi começar a escrever poesia; comecei a escrever poesia. Deve ser assim com a maioria dos poetas. É como quando alguém dá um espirro, não é um processo de decisão. Acontece. Foi pouco tempo depois que comecei a ler poesia, na adolescência, mas como forma de autoexpressão mesmo, pra mim mesma, uma necessidade interna de dar representação simbólica aos meus conteúdos, gerar forma estética e sintética a eles – o tipo de necessidade que todo artista tem. Eu não sei ‘por que poesia’; a gente tem que perguntar isso pra poesia: “por que é que ela escolhe poetas?” Essas coisas a gente não escolhe, a gente recebe a flecha no peito e faz. Se não fosse a poesia, provavelmente a forma de expressão artística teria sido direção de cinema ou direção teatral como segunda e terceira opções – mas fazer poesia aos 15 anos estava alcançando as minhas mãos. Os primeiros poemas eram de cunho filosófico e metafísico, pelo que recordo. A escola em que eu estudava tinha filosofia na grade curricular, no final da década de 90, e aquelas aulas sintonizavam muito com a minha frequência.
Como você escreve? Há um ritual, um lugar ideal, um estado mental ideal?
Atualmente não há. Já houve. Sobre como escrevo, geralmente o além me assopra algum verso pronto do nada e vou tecendo o poema a partir dali, mentalmente e emocionalmente implicada, pra cima, pra baixo, pra direita, pra esquerda, pra diagonal – tenho uma coisa com a velocidade em geral no ato de escrever um poema, um “high tempo”, rola uma arquitetagem, mas pouca dúvida, logo resolvida, porque sinto o que tem que ser e vou seguindo com a convicção de que o tem que ser do poema será – um poema é uma entidade com identidade própria que eu respeito, ele é bem maior do que o poeta e os seus quereres. Fazer um poema é ser instrumento, baixar o ego na medida suficiente pro inconsciente vir à tona, mas não o bastante pro autor perder o tino.
A gênese de Imago foi um tanto incomum: ao ser convidada pelo editor da Nauta a publicar, ainda não havia um livro. Você se deu um prazo, e nesse período de tempo o livro foi escrito. Como você explica esse processo tão pragmático na realização de algo que, para muitos, depende da inspiração, ou que é engendrado por forças misteriosas?
Eu acho que essa é uma das minhas maiores contradições: ser tão abstrata e tão prática, e igualmente tão sensível e tão mental. Gosto de experimentar o novo e quando surgiu o convite, senti aquilo como uma oportunidade de descobrir novas formas de criar, de encontrar lugares dentro de mim ainda desconhecidos e uma nova relação com o fazer poético – justamente por parecer relativamente desafiador, me interessou tanto. Eu não poderia falhar, pois tinha dado a minha palavra e achei isso um problema entusiasmante. Passava noites em claro escrevendo, dizia a mim: enquanto não sair um ou dois poemas que eu goste, não vou dormir. No final de tudo eu parecia um zumbi, porém feliz.
Muitos homens e mulheres de letras já tentaram definir, com maior ou menor acuidade, o que é a poesia. Você tem uma definição sua?
1. Uma intersecção da literatura com a música. 2. uma síntese, arquitetura de palavras, uma ponte que está a serviço da elevação da consciência coletiva e individual.
O que você está lendo no momento?
O ensaio Um teto todo seu, da Virginia Woolf. Se eram tempos difíceis pras mulheres, continua sendo bastante, mas bem menos.
Como você vê a literatura brasileira atual?
Por alguns ângulos. Um dos ângulos é que estamos vivendo um capítulo antes inexistente na história da literatura: a era da hiperpublicação. Este cenário tem dois polos, como tubo sob o céu. No polo positivo, o alcance da fatia de ótima literatura feita hoje, que, felizmente, está jorrando - é entusiasmante ver em vida tanta coisa boa brotar agora e transitar mais livremente. Por outro lado, se antes a publicação lamentavelmente tendia, no tocante à poesia, estritamente aos cânones (antes do surgimento das editoras menores e das publicações em redes sociais), aquele mesmo funil comercial das grandes editoras filtrava o que, por vezes, carece de interessância literária e está sendo publicado, como consequência de baixo discernimento editorial (não é raro), na enxurrada de livros que são lançados a cada semana. Ou seja, pendularmente, como é do feitio da história, foi-se de um extremo ao outro: o que antes era um enorme desafio para a circulação da nova literatura, tornou-se terra de todo e qualquer livro, mas, entre os dois cenários, certamente o atual é mais positivo, pois a hiperpublicação, apesar de seus pesares, carrega em si a total democratização da literatura enquanto voz criativa. Fica atualmente aos leitores o critério de discernir o que ler de literatura contemporânea, dentro da limitação dos minutos contidos nos dias; já, longitudinalmente, isso fica a cargo do “tribunal do tempo”, nas palavras de Eliot.
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Sim.
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