Andreas Chamorro escreve sobre "Schopenhauer e o Kung Fu"

Andreas Chamorro escreve sobre "Schopenhauer e o Kung Fu"

Schopenhauer e o Kung Fu

Andreas Chamorro

 

Grosso modo, o conceito principal do filósofo Arthur Schopenhauer, articulado entre a ideia de representação e vontade, sintetiza a junção de percepção e ímpeto, intrinsecamente uma coisa derivando da outra. A percepção do indivíduo que gera a sua representação do mundo e da realidade, e que depende da vontade motora, inerente e basal para a existência dessa mesma realidade.

O autor Caléu Moraes, em Schopenhauer e o Kung Fu, ciente dessa síntese clássica, conseguiu executar uma tarefa e tanto. Com um bom uso das artimanhas literárias, o autor pôde ficcionalizar os conceitos do filósofo, usando-os de matéria-prima e esqueleto para conceber um romance realmente inventivo.

Schopenhauer e o Kung Fu abre com uma cena que ilustra o conceito de vontade em Schopenhauer. É justamente o fator que moverá o narrador a escrever as páginas seguintes, que acabam simbolizando a representação.

Caléu Moraes nos apresenta um escritor não muito afoito a escrever ficção, que quebra um dente ao morder um milho de pipoca; claramente, ele tem de ir ao dentista e, uma vez na recepção do consultório, enquanto espera, um volume de artigos de odontologia chama sua atenção. Qual não foi a sua surpresa quando descobre um texto que revela uma ida de Schopenhauer a um dentista chinês para cuidar de um “Chong Ya”, ou “Verme Dental”. A vontade é instalada. Na sequência do episódio, o narrador diz: “Meu propósito, de imediato, era escrever alguma coisa (...)”.

É a partir desta vontade que o leitor será guiado por capítulos-artigos à procura de uma verdade: teria sido Schopenhauer um exímio praticante do Kung Fu? O narrador tem em mãos alguns itens que o ajudariam na pesquisa e através deles, de forma gradual, Schopenhauer e o Kung Fu também acaba se tornando uma narrativa detetivesca. O leitor é levado a querer comprovar junto do narrador a informação inverossímil. E a busca arquitetada tem suas ruas-sem-saída contempladas, por vezes parecerá que o escritor-pesquisador está longe de achar a ponta do novelo que procura, porém é onde mora a tensão do romance, onde mora o mistério.

A aparente experimentação estética, ainda que extremamente útil a um mote como o de Schopenhauer e o Kung Fu, o insere em uma longa tradição latino-americana. O romance de Caléu Moraes pode se ater a um filósofo germânico e uma prática corporal oriental como objetos de interesse, contudo seu uso variado de discursos o aproxima de autores como Borges e até de nomes contemporâneos como Alejandro Zambra. A produção de ficção sul-americana cultiva o hábito de experimentar os diferentes tipos de registro textual. E é justamente o trabalho feito do romance de Moraes, uma sobreposição estética que ilude os meandros entre um “artigo” e outro, onde o autor não deixa de inserir uma subjetividade agregadora a seu narrador.

Erudito sem distender o humor, inventivo ainda que seja centrado em uma figura muito conhecida, o romance envolve o leitor sem querer ser professoral, apenas uma história que quer ser contada. A história de uma vontade.

 

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