Leia dois poemas de Otto Leopoldo Winck
Leia dois poemas de Otto Leopoldo Winck
MANIFESTO
Quisera
na janela de minha página
avistar a lua
ou o sol da meia-noite.
Quisera
uma brecha
nas cortinas, uma fresta
onde eu pudesse vê-la
toda nua
– minha poesia em sua forma pura.
Mas, em vez disso,
o que tenho para hoje
é a cor suja que me turva
os olhos – o cinza de um dia que perdura.
Não importa:
é desta matéria impura
que erguerei
como uma barricada
(ou melhor: uma paliçada)
minha poesia
– lua de sangue
ou sol de fogo
no meio da noite.
TERRA IGNOTA
Desconheço os fundamentos da Terra,
o sexo dos serafins, o mapa das galerias pluviais,
a expressão dos olhos de Penélope quando reconheceu Ulysses.
Desconheço inclusive o paradeiro das gaivotas errantes,
das colheres perdidas, o caminho de volta para casa.
Há muita coisa que não sei – e nem quero saber:
teu nome, por exemplo, o que fazes, o que deixas de fazer,
de quem foges, por que choras.
A vida é um enigma
onde malogram os axiomas e as considerações finais.
Desconheço, sobretudo, o motivo
por que vim dar nesta rua, a esta hora nula.
A lua, quando surge, é um mistério.
Quando não surge também.
Desconheço sobretudo a forma da felicidade:
mas sei sua matéria: encontros fortuitos, descuidos,
duas luas na noite:
uma no céu (que é mistério),
outra no espelho d’água do fontanário da praça (que é signo).
Desconheço os fundamentos da Terra,
os fundamentos do Ser,
o nome secreto do amor.
Mas sei que é longo o caminho
que nos leva de volta
à carnadura do verbo.

Otto Leopoldo Winck, nascido no Rio de Janeiro mas radicado em Curitiba, é doutor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2005 foi vencedor do prêmio da Academia de Letras da Bahia, com o romance Jaboc. Em 2012 recebeu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria poesia. É autor, entre outas obras, de Cosmogonias (2017), livro de poemas, Que fim levaram todas as flores (2019), romance, e Forte como a morte (2023), também romance.
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