Leia poemas de 9 autoras publicadas pela Nauta

Leia poemas de 9 autoras publicadas pela Nauta

 

 

MEIA-NOITE EM TRANSE

     
Te vejo nas mãos, algumas delas minhas,
percorrendo escuridão, procriando linhas
em plena predileção pelo infinito.
Através do teu caminho, enxergo processos,
círculos em cambalhota,
pontos em circulação, vírgulas em rodopio,
em alguns te enxergo, n’outros crio
tu, tu, o teu porvir pulsando em ebulição
na retina do meu olho, 
não é por acaso que escolho, 
deixar o recinto como se fosse vagão.
Antes da meia-noite, o transe.
Depois do meio-dia, a chance
do trem parar no mesmo lugar.

 

         Do livro Imago, de Fernanda Spinelli


 

 

RENDA PORTUGUESA 


Atávica, farejando a cria
Experimentando os limites do abraço
Desdenhando das leis do espaço
Espaço-tempo.
É um espelho enfeitiçado
Desce queimando, feito conhaque.

All souls but the livin´
Os carros fazem fila
No cemitério.
Eu não sei onde você está
Onde devo visitá-lo
É sacrilégio
Te buscar na morte, na pedra
Fria
Quando o que vive ainda
É quente e respira.

 

          Do livro A mulher que me sonha à noite, de Marina Della Valle

 

 

A cada dia que passa, pareço mais com minha mãe 
E você, com a sua...
São esses dados, guardados na memória
as casas que moramos, a comida que ela fazia 
a música de fundo, o cotidiano de emoções
A maneira escandalosa de dizer que tinha razão, 
as horas de espera na frente da escola
A sorveteira 
Os segredos,
(Você também é cheio de segredos!)
As receitas, cuidadosamente escritas 
num caderno universitário, 
as histórias ardilosas

O julgamento

As toalhas bordadas, que nunca foram usadas 
o jeito de dispor os pratos no escorredor de louça

A manhã nascendo de uma oração

 

                     Do livro Útero de amoras, de Karoline Nogueira

 

 

 

CASO

 

Caso-me com pássaro 
Caso-me com eles 
Todos
santos
tantos soltos 
Livros voam
Caso-me com pássaros 
volto vou e vão
Caso-me com o pássaro 
Canta eu voo
sopra sopro ou então 
Caso-me com pássaro 
Digo boa noite
Meu amor 
E voo.

 

Do livro Pássaro, de Daísa Rizzotto Rossetto

 

 

CONSELHO


Olhe para cima
Vê se cai um pingo d’água 
Não se afogue nela
Nem se afogue em mágoa

Deixe a chuva cair 
Em cima de você 
Deixe ela te vestir
Mas não deixe ela te perder

Junte todos os cacos 
Forme um novo homem 
Paixão não é o que falta 
O que nos falta é clareza 
Amor pelo mundo
E menos certeza

Não tape buracos 
Com água da chuva 
Olhe o que tem
E não o que falta 
Siga o amor
Mais amplo 
Menos complexo 
Mais vasto 
Menos concreto 
Mais por tudo 
Menos reto

E mais 
Infinito

 

                  Do livro Gritos, sussurros e outras divagações, de Taís Freire

 

 

 

 

namazu 
 
os peixes-remo medem aproximadamente seis 
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses 
que é tempo de terremotos. a gramática diz: 
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto 
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo 
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis. 
as relações da causa e consequência do influxo 
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não 
são totalmente conhecidas. há quem diga 
que todo humano é prelúdio de incêndio. 
há quem acredite que toda carbonização 
é prelúdio de humano. não se sabe se houve 
guerra por que existem humanos ou existem 
humanos por que houve guerra. 
aos humanos quando os vemos 
resta contar a lenda de um primata que corre como 
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi 
e sabe como provocar terremotos.

 

                         Do livro Amarelo manga, de Maria Emanuelle Cardoso

 

 

 

desperta

um café e três pedaços de pão puro
é tudo que tenho 
em cima da mesa
meus tornozelos nus
e minhas mãos na cintura
meus ritos sumaríssimos
informais e rebeldes
um punhado de problemas
ácidos e varonis
subjetivos

você me pergunta quando é que vamos colher o alecrim
eu respondo - não sei

 

                 Do livro Nada Mais será sagrado, de Duda Junqueira

             

 

 

adoração 

na próxima noite, trocaremos poemas. te tocarei 
em lugares que só meus versos alcançam
você lerá para mim 
no teu timbre
mais silencioso 
e lento
sua nova descoberta. até lá, sozinha
imagino como a poesia
dança um balé indecente 
quando ela percorre 
improvisando
os caminhos da tua língua ao meu corpo.

até a próxima noite, guardarei as palavras 
mais próximas do meu espírito
para lhe entregar
extasiada
com toda a vida
nas profundezas 
para que você me olhe
ainda mais de perto.

 

                 Do livro Celebrar a lâmina, de Luíza Benamor

 

 

 

                 

 

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